Artista
Beto Guarnieri
Meu trabalho sempre esteve ligado à criatividade. Durante décadas, me dediquei à criação de cenários para eventos, transformando ideias em experiências visuais marcantes. Mas foi em 2017, durante uma viagem a São Paulo para trabalho voluntário, que um convite simples de um amigo acabou mudando meu caminho. Visitar uma loja de artes me fez reencontrar uma paixão que eu acreditava adormecida.
Ao entrar naquele espaço, fui imediatamente levado de volta à juventude, aos anos 80, quando pintava quadros e participava de exposições organizadas pela inesquecível Dinorath do Valle, uma das pessoas que mais acreditaram no meu potencial. Vindo de uma família humilde, eu dependia da generosidade de quem enxergava em mim algo além das minhas limitações. Muitas vezes, o apoio vinha em forma de folhas, canetas e tintas. A pintura era refúgio, impulso e liberdade. Depois, a vida me levou por outros caminhos.
Dois dias depois, voltei para casa com uma sacola cheia de materiais e uma decisão clara: eu ia recomeçar. Ao levantar o pincel, encontrei o desafio esperado, minha técnica estava enferrujada. Era como voltar a tocar um instrumento depois de décadas ou tentar recuperar o ritmo de um jogo antigo. Mas, junto com a dificuldade, veio também a certeza de que algo essencial estava sendo reaceso.
O tempo era curto. Eu ainda trabalhava intensamente com eventos, mas cada minuto livre passou a ser dedicado à pintura. A mesa improvisada em casa virou meu espaço de criação. Entre tintas, misturas e traços, fui retomando uma linguagem que sempre fez sentido para mim.
Quando a pandemia chegou, em março de 2020, a pausa nos eventos abriu espaço para a arte ocupar de vez a minha rotina. O que antes acontecia entre compromissos passou a tomar os dias e muitas noites também. No silêncio da madrugada, completei mais de 50 quadros em menos de um ano.
Esse processo foi muito mais do que produção artística. Foi reencontro. Reencontro com a minha essência, com quem eu era antes das responsabilidades e com aquilo que sempre me moveu de verdade. A cada pincelada, eu recuperava não apenas uma prática, mas uma parte de mim.
Hoje, a pintura representa muito mais do que uma atividade. É um caminho de descoberta, aprendizado e expressão. A arte se tornou uma fonte constante de inspiração e transformou a forma como eu enxergo e vivo o mundo.